Investigadores analisaram os genes de descendentes de mulheres que sobreviveram a um massacre na Síria em 1982. Conheça os resultados.
Em 1982, a cidade de Hama, na Síria, foi palco de um dos massacres mais violentos da história recente do país. Sob o comando do então presidente Hafez al-Assad, o exército sírio bombardeou a cidade e matou milhares de pessoas, incluindo mulheres e crianças. No entanto, apesar da tragédia, algumas mulheres conseguiram sobreviver e, décadas depois, pesquisadores decidiram analisar os genes de seus descendentes para entender melhor os efeitos do trauma em longo prazo.
O estudo, liderado pelo geneticista Stephen Scherer, da Universidade de Toronto, no Canadá, analisou o DNA de 35 mulheres que sobreviveram ao massacre de Hama e de seus filhos, que nasceram após o evento. Os resultados foram surpreendentes e revelaram que os descendentes dessas mulheres apresentavam alterações genéticas que podem estar relacionadas ao trauma vivido por suas mães.
Uma das principais descobertas do estudo foi a presença de alterações epigenéticas nos genes dos descendentes. A epigenética é o estudo das mudanças no funcionamento dos genes que não envolvem alterações na sequência do DNA. Essas alterações podem ser causadas por fatores ambientais, como o estresse e o trauma, e podem ser transmitidas para as gerações seguintes.
No caso dos descendentes das sobreviventes de Hama, os pesquisadores encontraram uma maior metilação no gene NR3C1, que está relacionado ao estresse e à regulação do cortisol, o hormônio do estresse. Isso significa que esses indivíduos podem ser mais propensos a desenvolver problemas relacionados ao estresse, como ansiedade e depressão.
Além disso, os pesquisadores também encontraram alterações nos genes relacionados ao sistema imunológico dos descendentes. Isso pode explicar por que muitos deles apresentam problemas de saúde, como alergias e doenças autoimunes. Segundo Scherer, essas alterações podem ser uma resposta do corpo ao trauma vivido pelas mães, que pode ter afetado a forma como seus genes são expressos.
No entanto, apesar das alterações genéticas encontradas nos descendentes das sobreviventes de Hama, os pesquisadores ressaltam que essas mudanças não são definitivas e não significam que esses indivíduos estão condenados a ter problemas de saúde. A epigenética é um campo de estudo relativamente novo e ainda não se sabe ao certo como essas alterações podem afetar a saúde humana.
O estudo também teve como objetivo entender como o trauma pode ser transmitido de uma geração para outra. Segundo Scherer, os resultados sugerem que o trauma pode deixar marcas no DNA que podem ser passadas para os descendentes. No entanto, mais pesquisas são necessárias para confirmar essa hipótese e entender melhor como isso acontece.
Os resultados do estudo também podem ter implicações importantes para a saúde mental e o tratamento de pessoas que sofreram traumas. Segundo os pesquisadores, entender como o trauma pode afetar os genes pode ajudar a desenvolver novas terapias e tratamentos que levem em consideração essas alterações genéticas.
Além disso, o estudo também destaca a importância de se investir em políticas e ações que visem prevenir e tratar o trauma em comunidades afetadas por conflitos e violência. A Síria, por exemplo, ainda sofre com a guerra civil e milhões de pessoas foram afetadas pelo conflito. Compreender os efeitos do trauma em longo prazo pode ajudar a desenvolver estratégias mais eficazes para lidar com essa situação.


