Aliança Cuba-Venezuela enfraquece após prisão de Maduro

A transformação nas relações diplomáticas entre os dois países
A aliança Cuba Venezuela vivencia um momento de transformação sem precedentes nos últimos duas décadas. Pela primeira vez em 20 anos, Cuba não apareceu mencionada no discurso de representante venezuelano perante a Assembleia Geral das Nações Unidas, refletindo as profundas mudanças geopolíticas que marcam a região. O pronunciamento da presidente interina venezuelana, Delcy Rodríguez, ignorou completamente o país caribenho, sinal eloquente de uma mudança radical nas prioridades diplomáticas.
Este acontecimento contrasta drasticamente com o histórico de relacionamento bilateral. Hugo Chávez, fundador da aproximação estratégica com Cuba, mencionou a ilha 11 vezes em seu discurso na mesma assembleia em 2009, descrevendo os dois países como "uma mesma nação" com "um mesmo governo". Já Nicolás Maduro citou Cuba 13 vezes em 2015. A ausência total de referências marca uma ruptura simbólica profunda nas relações que duraram mais de duas décadas.
Do otimismo inicial ao reconhecimento oficial do enfraquecimento
Inicialmente, após a captura de Maduro em 3 de janeiro de 2026, o governo cubano manifestou solidariedade. Miguel Díaz-Canel, presidente de Cuba, relatou em rede social ter conversado com Rodríguez, expressando "apoio e solidariedade" e reafirmando a decisão de "continuar fortalecendo as históricas relações de irmandade e cooperação". Porém, essa mensagem otimista ocultava tensões crescentes que emergiriam nos meses seguintes.
Menos de uma semana depois, Rodríguez defendeu a soberania venezuelana, afirmando o direito de manter relações diplomáticas com diversos países, incluindo China, Rússia, Irã, Cuba e até Estados Unidos. Embora tenha mencionado Cuba naquela ocasião, o tom sugeria um reposicionamento geopolítico mais amplo que minaria posteriormente a aliança bilateral.
O reconhecimento oficial do enfraquecimento veio meses depois, quando Carlos Fernández de Cossío, vice-ministro das Relações Exteriores cubano, afirmou em entrevista à Bloomberg que a Venezuela era um país "amigo", mas usou linguagem cautelosa quanto ao termo "aliado". Essa declaração representou o primeiro reconhecimento público de que a "relação estratégica" construída por Chávez e Fidel Castro havia deteriorado significativamente.
A história da cooperação Cuba-Venezuela: médicos e agentes de segurança
A aproximação entre Cuba e Venezuela iniciou-se em 1999, quando Chávez chegou ao poder e estreitou laços com a ilha. O acordo fundamental previa venda de petróleo venezuelano a Cuba em condições preferenciais, enquanto a ilha enviaria profissionais para trabalhar em saúde, educação, cultura e esporte. Esta cooperação transformaria ambos os países durante mais de duas décadas.
Na área de saúde, a presença cubana ganhou visibilidade através do programa Barrio Adentro, que mobilizou milhares de médicos para atender comunidades carentes. O programa apresentava similaridades com a experiência brasileira do Mais Médicos, incluindo resistências locais. Contudo, especialistas alertam que os médicos representavam apenas a face mais visível da cooperação bilateral.
Agentes de segurança: a dimensão ocultada da aliança
A verdadeira profundidade da relação Cuba-Venezuela residia na presença de agentes cubanos nos órgãos de segurança venezuelanos. Frank Mora, professor de relações internacionais da Universidade Internacional da Flórida, confirmou que a "presença mais importante de Cuba na Venezuela, que já não existe, era na área de contrainteligência". Após abril de 2002, Fidel Castro teria enviado agentes para proteger Chávez contra conspirações nas Forças Armadas.
Cuba infiltrou-se profundamente nas Forças Armadas e órgãos de segurança do Estado venezuelano, levando à adoção da doutrina militar cubana da "guerra de todo o povo". A cooperação atingiu níveis extraordinários, com especialistas referindo-se à "cubanização" das Forças Armadas Bolivarianas. Os agentes cubanos não apenas treinavam pessoal, mas também participavam ativamente de operações de contrainteligência e repressão, especialmente através da Direção Geral de Contrainteligência Militar (Dgcim).
Durante anos, Cuba negou oficialmente a presença desses agentes de segurança. A negativa foi potencialmente desmentida durante a operação americana que capturou Maduro, quando 32 cubanos morreram no bunker presidencial. Entre os falecidos havia oficiais de alto escalão: dois coronéis, um tenente-coronel, quatro majores e três capitães, indicando funções de segurança sofisticadas muito além de tarefas básicas. Marco Rubio, secretário de Estado americano, afirmou que Cuba "basicamente tentou colonizar a Venezuela na área de segurança".
A "descubanização" dos órgãos de segurança venezuelanos
Após a captura de Maduro e a assunção de Rodríguez, os Estados Unidos assumiram controle da venda de petróleo venezuelano, mantendo o fornecimento a Cuba suspenso. A ilha já sofria falta de petróleo desde o fim de 2025 devido ao bloqueio marítimo americano. Em meados de janeiro, a mídia cubana 14ymedio informou que aeronaves da companhia Cubana de Aviación realizaram múltiplas viagens entre Caracas e Havana, transportando militares feridos à operação americana.
Um mês depois, agências de notícias internacionais publicaram reportagens baseadas em fontes informadas indicando que agentes de segurança e médicos cubanos estavam sendo retirados da Venezuela sob pressão americana. Funcionários cubanos foram afastados de cargos na Dgcim, embora permanecesse incerteza sobre expulsão, repatriação voluntária ou retirada cubana deliberada.
John Polga-Hecimovich, professor de ciência política da Academia Naval americana, enfatiza que a "descubanização" dos órgãos de segurança constitui prioridade máxima para a inteligência americana. Segundo seu parecer, "tudo indica que tiveram sucesso nessa tarefa". Mora confirmou que integrantes do Pentágono lhe confirmaram a saída de agentes cubanos de posições-chave na Venezuela.
A permanência parcial da cooperação médica
Enquanto a presença de segurança cubana foi substancialmente reduzida, a cooperação médica apresenta permanência relativa. Investigação recente da Archivo Cuba, ONG documentadora de violações de direitos humanos, constatou que missões médicas cubanas continuam funcionando em pelo menos 22 Estados venezuelanos. Antes dos eventos recentes, Cuba afirmava presença em 24 dos 24 Estados.
O que realmente mudou foi o aumento de desistências entre profissionais cubanos, muitos fugindo para Colômbia e Guiana ou permanecendo escondidos na Venezuela. A embaixada cubana permanece ativa, porém registros públicos não documentam encontros do embaixador com o núcleo de poder do governo Rodríguez, composto pela própria presidente, seu irmão Jorge Rodríguez (presidente da Assembleia Nacional) e Diosdado Cabello (ministro do Interior).
Comunicados do Ministério das Relações Exteriores cubano sobre a Venezuela registram apenas encontros com governadores, prefeitos, deputados e movimentos sociais. As viagens a Havana de autoridades venezuelanas, frequentes sob Maduro, reduziram-se significativamente, com apenas uma visita oficial documentada em 2024, realizada pelo ministro da Comunicação e Informação, Miguel Pérez Pirela.
A reação cautelosa de Cuba diante da "traição"
A mudança radical de Rodríguez ao se aliar com Donald Trump surpreendeu observadores internacionais. A suspensão do envio de petróleo a Cuba, justamente quando a ilha enfrenta desesperada carência energética, intensificou a tensão. Ativistas cubanos nas redes sociais qualificaram a ação como "traição" aos princípios históricos de solidariedade anti-imperialista.
Contrastando com sua reputação de crítica verbal veemente, o governo de Díaz-Canel não criticou publicamente Rodríguez. A reação mais dura foi comentário de Joaquín Alonso Vázquez, ministro da Economia e Planejamento cubano, no Facebook, sugerindo "traição" antes de ser posteriormente removido. Este comportamento surpreende, considerando o histórico cubano de ataques retóricos contra adversários políticos.
Preservação estratégica das relações
Javier Corrales, professor de ciência política do Amherst College, argumenta que Cuba sente falta do petróleo venezuelano, mas não vê a Venezuela como inimiga. "Não acho que tenha havido ruptura que implique necessariamente hostilidade. Penso que eles avaliam que, diante de tudo que poderia ter dado errado, esse resultado não é tão ruim", afirmou.
Mora destaca que Cuba concentra esforços em sua própria sobrevivência, compreendendo simultaneamente a pressão americana sobre Rodríguez. Nesse contexto, atacar a Venezuela ofereceria pouco benefício a Cuba, cujo governo deixou de ser aliado por força das circunstâncias geopolíticas.
Nícmer Evans, cientista político venezuelano, ressalta que Cuba historicamente busca preservar vínculos com aliados atuais, passados e potenciais. "Eles sempre vão tentar manter a relação ou recuperá-la. Talvez não estejam conseguindo chegar ao núcleo de poder do triunvirato, mas não acho que tenham abandonado vínculos com setores do chavismo", observou.
Perspectivas futuras e jogo de resistência
A estratégia cubana de manter portas abertas possui utilidade considerável no cenário atual. Mudanças políticas na Venezuela não estão garantidas, e uma eventual transição depende significativamente da disposição do governo Trump em promovê-la. Sob essa perspectiva, Cuba e Venezuela estariam ganhando tempo, resistindo até possíveis mudanças governamentais em Washington.
Sem Trump no poder, ambos os países poderiam explorar oportunidades de restabelecer laços históricos. A aliança Cuba-Venezuela, embora profundamente abalada, não foi formalmente desfeita, permanecendo numa condição ambígua entre amizade e alianç distante, refletindo as complexidades geopolíticas que caracterizam a região atualmente.
