Colômbia dividida: De la Espriella e Cepeda representam dois modelos opostos
A Colômbia em encruzilhada política
A eleição Colômbia 2026 consolidou um cenário de profunda divisão ideológica. O primeiro turno deixou frente a frente dois candidatos cujos projetos políticos não poderiam ser mais antagônicos: Abelardo de la Espriella, advogado outsider com plataforma conservadora, e Iván Cepeda, senador progressista com agenda de reformas sociais. A disputa que será definida no segundo turno deste domingo (21 de junho) reflete não apenas diferenças programáticas, mas uma fragmentação territorial e econômica profunda na nação andina.
De la Espriella obteve 43,7% dos votos no primeiro turno, contra 40,9% de Cepeda, demonstrando uma competição equilibrada que evidencia a polarização eleitoral. O candidato conservador alinha-se com tendências políticas internacionais representadas por Donald Trump, Javier Milei e Nayib Bukele, enquanto Cepeda busca dar continuidade ao projeto progressista do presidente Gustavo Petro. Essa dicotomia aparente, porém, mascara dinâmicas mais complexas que analistas e cientistas políticos vêm estudando.
Divisões territoriais e econômicas arraigadas
As raízes dessa polarização na eleição Colômbia remontam ao plebiscito de 2016 sobre o acordo de paz com as Farc. Desde então, padrões consistentes de votação vêm se repetindo a cada pleito presidencial. Yann Basset, cientista político da Universidade do Rosario, identifica dinâmicas territoriais muito específicas que transcendem simples preferências ideológicas.
As regiões periféricas colombianas—que incluem os litorais, a Amazônia e a fronteira com a Venezuela—votam majoritariamente pela esquerda, enquanto o centro do país, atravessado pelos Andes, prefere candidatos conservadores. Essas divisões coincidem com realidades econômicas distintas: nas periferias predomina uma economia extrativista com presença estatal limitada, enquanto o centro vive de um sistema agroindustrial integrado aos centros urbanos.
As regiões periféricas também enfrentam desafios sociais mais agudos, sendo as mais afetadas pela violência, pela pobreza e pelas disputas entre grupos armados que exploram rotas de narcotráfico. Cepeda obteve seus melhores resultados nessas áreas, onde sua proposta de inclusão para afro-colombianos e comunidades indígenas encontrou receptividade. De la Espriella, por sua vez, consolidou apoio nas regiões mais desenvolvidas economicamente.
Além da dicotomia esquerda-direita
Especialistas questionam a narrativa simplista de um país dividido em dois blocos monolíticos. Felipe Arias Escobar, historiador, aponta continuidades históricas que transcendem a atual polarização. Setores que votavam no Partido Conservador durante o século 20, depois apoiaram o ex-presidente Álvaro Uribe, agora simpatizam com a versão populista das direitas contemporâneas representada por De la Espriella.
Similarmente, grupos que outrora sustentavam o Partido Liberal, posteriormente apoiaram Juan Manuel Santos, hoje encontram representação em candidatos progressistas. Essa evolução não segue necessariamente uma lógica de esquerda contra direita, mas reflete demandas específicas de setores sociais em transformação.
A explosão social de 2021 durante o governo do conservador Iván Duque marca um ponto de inflexão. Aquelas manifestações contra a injustiça econômica e a política tradicional cristalizaram uma nova cidadania que se visibilizou nas eleições subsequentes. Os votos em Petro em 2022 e agora em Cepeda refletem parcialmente esse movimento, enquanto De la Espriella beneficia-se de uma reação que busca frear esse impulso transformador.
Eleitores voláteis e identidades fluidas
Juan Fernando Giraldo, cientista político especializado em opinião pública, destaca uma realidade frequentemente ignorada: a maior parte do eleitorado colombiano não opera dentro de identidades políticas rígidas. Diferentemente dos anos 1940 e 1950, quando declarar-se conservador ou liberal refletia completamente a identidade de uma pessoa, atualmente essas categorias perderam estabilidade.
Aproximadamente 80% dos colombianos se identificam como católicos, enquanto outros 10% professam cristianismo evangélico. Matematicamente, esse dado deveria favorecer permanentemente candidatos conservadores. Contudo, existe um grande bloco de cidadãos com posições menos intensas sobre questões políticas fundamentais, que não acreditam necessariamente em maior ou menor intervenção estatal, e tendem a se informar e expressar menos sobre política.
Esse eleitorado volátil pode votar em candidatos muito distantes entre si sem que isso signifique representação fiel de uma polarização real. As pesquisas com frequência refletem análises das elites políticas e intelectuais, enquanto conversas nas cidades e zonas rurais revelam preocupações mais imediatas: emprego, segurança pessoal, educação dos filhos e acesso a serviços básicos.
Estratégias de campanha e suas efetividades
De la Espriella construiu sua campanha em mensagens claras sobre família, autoridade estatal forte e combate agressivo ao crime, particularmente eficazes em segmentos populacionais que priorizam ordem e segurança. Seu discurso de princípios religiosos cristãos e linha dura contra criminosos ressoa em parcelas consideráveis do eleitorado que temem pela integridade pessoal e familiar.
A estratégia de Cepeda beneficiou-se do entusiasmo gerado por Gustavo Petro e sua promessa de transformação radical. Muitos eleitores que votam em Cepeda sentem-se atraídos pelo discurso progressista mas não necessariamente se identificam como esquerdistas ou defensores de pautas minoritárias, revelando que o voto reflete múltiplas motivações além de posicionamento ideológico puro.
Conclusão: uma Colômbia multifacetada
A eleição Colômbia 2026 não pode ser reduzida a uma simples luta entre direita e esquerda. Embora diferenças reais e significativas separem De la Espriella e Cepeda em suas propostas econômicas, de segurança e sociais, a realidade eleitoral reflete transformações complexas nos valores, demandas e identidades políticas colombianas. Heranças históricas, divisões territoriais, mudanças econômicas e novas formas de cidadania convergem para criar um cenário onde dois mundos aparentemente irreconciliáveis coexistem—mas onde milhões de eleitores navegam cotidianamente entre posições menos absolutas do que os números eleitorais sugerem.
