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Deportações de afegãos geram temor de represálias do Talibã

Deportações de afegãos geram temor de represálias do Talibã
Imagem: g1.globo.com. Uso informativo; os direitos pertencem ao seu titular.

Plano controverso de deportação enfrenta críticas internacionais

As deportações de afegãos represados nos Estados Unidos sob o governo Trump representam uma das ações mais polêmicas da atual administração no tocante à política imigratória. Documentos judiciais obtidos pela agência Associated Press confirmam que o governo pretende enviar imigrantes afegãos de volta para seu país de origem, passando pelo Paquistão como intermediário, uma estratégia que desencadeou alertas de organizações de defesa dos direitos humanos em todo o mundo.

As deportações de afegãos ganham destaque internacional porque afetam especificamente indivíduos que fugiram da perseguição no Afeganistão e que enfrentaram risco de morte por terem colaborado com as Forças Armadas americanas e instituições humanitárias durante o conflito no país. Essa circunstância agrava consideravelmente as preocupações sobre o destino dos deportados.

Cronograma e operações de repatriação forçada

De acordo com documentos sigilosos apresentados em tribunais federais, os EUA planejam iniciar as deportações de afegãos já na segunda-feira, com voos partindo de centros de detenção da Agência de Imigração e Alfândega (ICE) localizados na Louisiana. O destino inicial é o Paquistão, mas documentos judiciais indicam que os imigrantes serão posteriormente transportados para o Afeganistão após chegarem ao território paquistanês.

A Bloomberg foi a primeira a noticiar o plano na segunda-feira, seguida pelo New York Times na sexta-feira anterior, que forneceu detalhes adicionais sobre a rota de repatriação. Um funcionário de alto nível do ICE reconheceu em documento judicial que um imigrante afegão estava programado para embarcar em voo fretado de Alexandria, na Louisiana, com destino a Islamabad e posterior transporte para o Afeganistão.

Segurança operacional e falta de transparência

Um porta-voz do Departamento de Segurança Nacional dos EUA respondeu à Associated Press indicando que o ICE não divulga informações sobre futuras operações de deportação, justificando a posição com alegações de segurança operacional e proteção de pessoal. As autoridades da Embaixada do Paquistão em Washington não responderam aos contatos da imprensa.

Riscos humanitários e represálias do Talibã

Organizações de defesa dos direitos de imigrantes expressam preocupação grave com a segurança dos deportados. Os críticos argumentam que as deportações de afegãos para um país sob controle talibã colocam em risco imediato as vidas dessas pessoas, especialmente aquelas que auxiliaram militares americanos. O Talibã é conhecido por buscar vingança contra indivíduos que colaboraram com forças estrangeiras durante o conflito.

Shawn VanDiver, veterano da Marinha dos EUA e presidente da organização #AfghanEvac, declarou que a medida é "absolutamente inconcebível" e criticou o que descreveu como disposição ilimitada de infringir leis e violar direitos humanos fundamentais. Sua posição reflete o sentimento de muitos que serviram no Afeganistão e entendem os perigos específicos enfrentados por colaboradores locais.

Precedentes de deportações controversas

Este não é o primeiro caso polêmico de deportação sob a administração Trump. O governo já enviou imigrantes para países que não são seus de origem, tanto por impossibilidade diplomática quanto como medida dissuasória. Documentos judiciais revelaram que juízes de imigração americanos determinaram anteriormente que as vidas dessas pessoas estariam em risco se fossem repatriadas para suas nações de origem, embora não fique claro se os afegãos agora designados para deportação possuem ordens judiciais de proteção.

Resposta de organizações defensoras de direitos humanos

A Human Rights First, organização que monitora voos de repatriação dos EUA, confirmou no sábado a existência de um voo programado da Louisiana para o Paquistão na terça-feira, transportando imigrantes afegãos. Savitri Arvey, diretora de políticas da organização, descreveu a operação como "extremamente ultrajante" e sem precedentes em sua escala.

A organização também documentou outros casos igualmente preocupantes durante esta administração, incluindo cristãos iranianos convertidos e dissidentes políticos deportados para o Irã através de terceiros países, bem como um dissidente político russo enviado de volta à Rússia. Esse padrão sugere uma abordagem sistemática às deportações que ignore considerações humanitárias fundamentais.

Críticas políticas e parlamentares

Membros democratas do Congresso manifestaram oposição veemente ao plano após a reportagem do New York Times na sexta-feira. A senadora Jeanne Shaheen publicou nas redes sociais que é "repreensível" planejar deportar centenas de afegãos, incluindo mulheres e crianças que apoiaram as forças americanas, para o Paquistão, de onde correm risco de serem enviados às mãos do Talibã.

O senador Richard Blumenthal ressaltou em publicação que o país fez uma promessa aos aliados afegãos de não abandoná-los após receberem assistência durante o conflito. Segundo ele, a administração atual estaria traindo essa promessa ao deportar os afegãos para "possível tortura e morte".

Contexto mais amplo da política imigratória Trump

As deportações de afegãos inserem-se em um contexto mais amplo de endurecimento da política imigratória desde o início do segundo mandato de Trump. A administração suspendeu o programa de reassentamento de refugiados afegãos herdado da administração anterior como parte de uma série de decretos executivos destinados a restringir significativamente a imigração.

Em setembro, o governo finalizou uma prorrogação de última hora para evitar o fechamento da base As Sayliyah, no Catar, que abriga mais de mil afegãos que contribuíram para o esforço de guerra americano ou que são familiares de militares dos EUA. O funcionamento da base foi estendido por nove meses, oferecendo alívio temporário, mas deixando indefinida a situação de longo prazo desses indivíduos.

Critérios de admissão revisados

As mudanças na política imigratória também incluem alterações drásticas nos critérios de admissão, priorizando certos grupos em detrimento de outros. Essas mudanças deixaram milhares de pessoas que fugiram de guerra e perseguição — que passaram por rigorosos processos de seleção para tentar reconstruir suas vidas — abandonadas em locais ao redor do mundo.

Consequências para refugiados afegãos

A situação dos afegãos afetados por essa política de deportação destaca uma questão ética e humanitária fundamental: o que os países devem fazer pelos indivíduos que os ajudaram em contextos de conflito armado. A prática de repatriar pessoas para ambientes onde enfrentam perseguição sistemática contradiz normas internacionais de proteção de refugiados estabelecidas pela Convenção de 1951.

As deportações de afegãos sob a administração Trump representam um ponto de inflexão na abordagem americana à questão dos refugiados de guerra, sinalizando uma mudança radical em relação às responsabilidades históricas do país com aliados que arriscaram suas vidas em apoio a operações militares americanas.

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