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Empresas dos EUA querem barrar tarifa de 25% sobre produtos brasileiros

Empresas dos EUA querem barrar tarifa de 25% sobre produtos brasileiros
Fonte: g1.globo.com/economia/noticia/2026/06/20/tarifaco-de-trump-empresas-dos-eua-afirmam-que-brasil-e-insubstituivel-e-tentam-barrar-taxa-de-25percent.ghtml

Pressão de empresas americanas contra a tarifa de 25% sobre produtos brasileiros

A proposta do governo dos EUA de impor uma tarifa de 25% sobre produtos brasileiros gerou reação imediata de empresas americanas que dependem das importações do país. Centenas de organizações, desde atacadistas especializados em minerais até fabricantes de pisos e componentes de construção, acionaram suas máquinas de lobby em Washington para tentar reverter a medida. O argumento central é unânime: não existem substitutos viáveis para a maioria dos produtos brasileiros no mercado internacional.

A GeoCentral, uma das maiores atacadistas de pedras naturais dos EUA, lidera esse movimento de resistência. Sediada em Mason, Ohio, e controlada desde 2008 pela holding CM Paula, a empresa importa mais de 25% do seu portfólio inteiro do Brasil, especialmente de estados como Minas Gerais e Rio Grande do Sul. Cristais, ágatas, ametistas e quartzos extraídos em minas brasileiras chegam aos EUA para serem transformados em itens de decoração, presentes e lembranças vendidos em lojas de todo o país.

A singularidade dos produtos brasileiros

Segundo George White, CEO da CM Paula, a escolha pelo Brasil não é questão de preferência, mas de necessidade. "Nós não compramos do Brasil simplesmente porque queremos. Compramos porque o país oferece a melhor combinação de qualidade e custo disponível no mundo", afirmou em entrevista. A empresa pediu formalmente ao Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR) que as pedras semipreciosas brasileiras sejam incluídas na lista de produtos isentos da tarifa proposta.

O Brasil, de acordo com White, possui uma infraestrutura mineradora praticamente impossível de ser replicada por concorrentes. A capacidade para extrair, cortar, polir e preparar pedras em larga escala não existe em outros países com a mesma eficiência e custo-benefício. "Simplesmente não existem alternativas equivalentes em outros lugares", afirmou o executivo. Na manifestação formal ao USTR, a CM Paula informou que cerca de 120 produtos comercializados pela GeoCentral seriam afetados pela tarifa de 25% sobre produtos brasileiros e não estão disponíveis em fontes alternativas com preços razoáveis, qualidade semelhante ou quantidade suficiente.

Dimensão do comércio em risco

Os números revelam a importância estratégica das relações comerciais. Em 2025, as exportações brasileiras de pérolas e pedras preciosas ou semipreciosas, brutas ou trabalhadas, totalizaram cerca de US$ 45,6 milhões para os EUA. Quando se incluem joias e outros artigos de matérias preciosas ou semipreciosas, o valor supera US$ 71,8 milhões. Uma sobretaxa de 25% representaria transferência significativa de custos para empresas e consumidores americanos.

Empresas americanas mobilizadas contra a medida

A GeoCentral não está sozinha nessa luta. Pelo menos outras 11 empresas e entidades setoriais enviaram manifestações ao USTR contestando a proposta de sobretaxa. Dessas, ao menos nove são companhias americanas que sustentam argumentos similares: a medida aumentará custos, prejudicará suas operações e reduzirá a competitividade da indústria dos EUA.

A The Fantastic Floor, especializada em pisos de madeira e sediada em Washington, pediu exclusão de espécies brasileiras como jatobá e cumaru da tarifa. Segundo a companhia, essas madeiras são nativas da América do Sul e não estão disponíveis comercialmente nos EUA. A Artivo Surfaces, importadora e distribuidora americana de revestimentos e pisos de madeira, afirmou que os materiais brasileiros precisam ser processados ainda na origem para preservar qualidade. "Aumentar a tarifa não beneficiará os fabricantes ou consumidores dos EUA, porque as matérias-primas são naturalmente indisponíveis e a qualidade do produto não pode ser replicada", disse em sua manifestação.

A Strong Flooring Solutions argumentou que não existem espécies americanas capazes de reproduzir a aparência das madeiras brasileiras. Consumidores interessados nesse tipo de produto não migrariam para alternativas nacionais simplesmente porque "não há opção disponível". A Wood Timber Import destacou a importância de molduras e componentes de construção fabricados no Brasil para o mercado imobiliário americano, alertando que a produção doméstica não consegue atender à demanda em volume e qualidade suficientes.

Impacto além do setor de mineração

A JKG Inc., distribuidora de placas de granito, mármore e quartzo, afirmou que os materiais brasileiros possuem características geológicas únicas. Em sua manifestação, alertou que a medida apenas encareceria obras e produtos finais: "Adicionar tarifas sobre pedras naturais do Brasil servirá apenas para elevar os custos de construção e aumentar os custos para os consumidores finais".

A Legacy Roots Housing Initiative (LRHI), organização voltada ao desenvolvimento de moradias modulares e projetos de infraestrutura habitacional, afirmou que a tarifa criaria barreiras para pequenos incorporadores e atrasaria projetos habitacionais. A Lauria Dental Model, que comercializa modelos odontológicos para universidades e cursos de formação, pediu exclusão desses produtos, argumentando que são destinados exclusivamente ao ensino e que a sobretaxa apenas elevaria custos educacionais.

Entidades setoriais também entraram no debate. A American Seed Trade Association (ASTA) pediu participação na audiência pública do USTR e defendeu que sementes para plantio sejam excluídas da tarifa. Segundo a associação, a implementação da nova taxa prejudicaria a competitividade do setor americano e afetaria cadeias globais de suprimento essenciais para a inovação agrícola.

Histórico de impactos anteriores

White afirma que a empresa já sofreu impactos relevantes com aumentos tarifários anteriores sobre importações brasileiras. As sobretaxas obrigaram a companhia a reduzir despesas, demitir funcionários, diminuir investimentos em marketing e elevar preços praticados no atacado. No Brasil, as sobretaxas impostas pelos EUA chegaram a 50% sobre parte dos produtos exportados em 2025.

Parte desses valores começou a ser devolvida após decisões da Justiça americana que questionaram a legalidade de tarifas impostas com base na Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional (IEEPA). Em 20 de novembro de 2025, o presidente Donald Trump assinou decreto que retirou tarifa adicional de 40% aplicada a produtos agrícolas e pecuários brasileiros. Posteriormente, após a Suprema Corte considerar ilegais parte dessas sobretaxas, o governo americano passou a utilizar outros instrumentos legais para sustentar algumas cobranças, incluindo tarifa global de 10% sobre importações.

De acordo com White, a GeoCentral já recuperou cerca de 10% dos valores devidos e espera receber o restante até fim deste ano ou início do próximo. Ao todo, a companhia apresentou 117 pedidos de restituição relacionados a importações provenientes do Brasil e China.

Continuidade nas importações apesar da tarifa

Mesmo que a tarifa adicional de 25% seja implementada, a GeoCentral afirma que continuará comprando produtos brasileiros. "Continuaremos importando do Brasil. A única diferença é que teremos de arcar com custos maiores por causa das tarifas", disse White. Segundo o executivo, a companhia ainda não encontrou em outros países fornecedores capazes de substituir as pedras brasileiras. Isso revela que, apesar dos custos adicionais, as empresas americanas dependem fundamentalmente das importações brasileiras.

Cronograma do processo de decisão

A mobilização das empresas americanas ocorre após o USTR concluir investigação que acusa o governo brasileiro de adotar práticas que "oneram ou restringem" o comércio com os EUA, citando temas como PIX, combate ao desmatamento ilegal, pirataria e aplicação de leis anticorrupção. Com base no relatório, o órgão propôs tarifa adicional de 25% sobre ampla gama de produtos brasileiros.

O prazo para envio de manifestações por escrito encerra em 1º de julho, com audiência pública marcada para 6 de julho, quando representantes dos setores afetados poderão apresentar ao governo americano os impactos da medida. Após esse período, o governo dos EUA deverá analisar as contribuições recebidas. A expectativa é que o processo seja concluído até 15 de julho, data prevista para eventual implementação das novas tarifas.

Esforços diplomáticos do Brasil

Segundo o Itamaraty, o Brasil tem atuado em duas frentes para tentar reverter a proposta: contestação técnica da investigação conduzida pelo USTR e negociação diplomática com Washington. O governo brasileiro afirma ter enviado manifestações formais ao órgão americano e estuda apresentar nova contribuição durante período de consultas.

O tema pode ganhar espaço na agenda política internacional. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva participa da cúpula do G7 na França, e o governo brasileiro trabalha com possibilidade de encontro com presidente Donald Trump, embora não haja reunião bilateral oficialmente marcada. Nos bastidores, a avaliação é que a proposta de sobretaxa de 25% ainda pode ser negociada antes da conclusão do processo conduzido pelo USTR.

Posicionamento da Câmara Americana de Comércio

A Amcham Brasil, entidade que representa empresas e as relações comerciais entre Brasil e EUA, afirmou que acompanha de perto a investigação e defende saída negociada para o impasse. A entidade informou que vem mantendo conversas com autoridades brasileiras e americanas. Foi realizada reunião em 15 de junho em São Paulo com o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) e representantes de cerca de 15 empresas.

A Amcham também participou da consulta pública e audiência promovidas pelo governo dos EUA e prepara nova manifestação ao USTR. O documento deve destacar efeitos das sobretaxas sobre cadeias de suprimentos, produção e consumo no mercado americano, além do papel do Brasil como fornecedor estratégico. "Brasil e Estados Unidos possuem relação econômica altamente complementar e estratégica", afirmou a entidade. "Por isso, segue trabalhando para que eventuais divergências sejam tratadas por meio do diálogo e da cooperação, preservando o comércio, os investimentos e a competitividade das empresas dos dois países".

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