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Escafandristas relançam Buarque com sofisticação

Escafandristas relançam Buarque com sofisticação
Fonte: g1.globo.com/pop-arte/musica/blog/mauro-ferreira/post/2026/06/19/aos-82-anos-chico-buarque-tem-obra-remodelada-ao-feitio-sofisticado-dos-escafandristas-no-album-do-quarteto.ghtml

Quarteto carioca reimagina o legado musical com Escafandristas Buarque

O grupo carioca Escafandristas apresenta seu primeiro álbum, "Escafandristas cantam Buarque", lançado na véspera do octogésimo segundo aniversário do compositor conterrâneo Chico Buarque. Esta é uma oportunidade singular para redescobrir as composições icônicas através de uma perspectiva renovada, mantendo a integridade das melodias originais enquanto explora territorios harmônicos e rítmicos inéditos.

Formado em 2024 com o propósito específico de reinterpretar o cancioneiro de Chico Buarque, o quarteto reúne talentos musicais distintos sob a direção de Thiago Amud, que toca violão e oferece sua voz ao projeto. Acompanhado por Alice Passos nas vocalizações, flauta e violão, Luisa Lacerda também em vozes e instrumentos de corda, e Renato Frazão no baixo, o ensemble constrói uma sonoridade que se posiciona deliberadamente fora do universo tradicional das releituras musicais.

Uma abordagem sofisticada das 15 composições selecionadas

O álbum "Escafandristas cantam Buarque" concentra-se em 15 faixas cuidadosamente selecionadas a partir de um universo de aproximadamente 80 músicas pré-selecionadas para o show inaugural realizado em outubro de 2024. A escolha das composições revela uma compreensão profunda do repertório, variando entre clássicos consagrados e peças menos conhecidas do acervo buarquiano.

"Construção", a música que abre o álbum, demonstra a capacidade do quarteto de se desvincular completamente do arranjo original criado pelo maestro Rogério Duprat para a gravação de referência. Esta reinterpretação estabelece o tom sofisticado que caracteriza todo o projeto, evidenciando que o trabalho dos Escafandristas transcende o simples exercício de releitura musical.

Harmonização refinada e precisão interpretativa

A diferença fundamental entre as gravações propostas pelos Escafandristas e um simples karaokê instrumental reside na harmonização elaborada das vozes e nas transformações rítmicas implementadas. Músicas como "Brejo da Cruz" (1984) e "Sonhos Sonhos São" (1998) beneficiam-se dessa abordagem sofisticada, onde a complexidade harmônica cria novas dimensões sonoras sem desrespeitar as estruturas melódicas originais.

O dueto entre Thiago Amud e Luísa Lacerda em "Morro Dois Irmãos" (1989) exemplifica a afinidade vocal entre o intérprete e o próprio Chico Buarque, sugerindo uma conexão intuitiva com a estética buarquiana. Esta compatibilidade vocal estende-se ao trabalho de Renato Frazão, particularmente notável em seu solo no samba "Cotidiano" (1971), onde a gravação lapidar acompanha o dia-a-dia conjugal através de pausas sincronizadas com os versos da composição.

Citações inteligentes e camadas compositivas

Uma característica distintiva do projeto envolve a inserção estratégica de citações musicais em seis das 15 faixas. Estas referências não constituem meros ornamentos, mas funcionam como diálogos sofisticados entre as obras. "Futuros Amantes" (1993) incorpora a icônica "Eu Te Amo" (composição de Chico Buarque com Antonio Carlos Jobim de 1980) de forma orgânica dentro da estrutura da gravação.

Da mesma maneira, "Corrente" (1976) estabelece uma amarração com "Mambembe" (1972), enquanto "Morena dos Olhos D'Água" (1966) dialoga com a "Morena do Mar" (1972) de Dorival Caymmi, além de evocar a ciranda "Na Ilha de Lia, no Barco de Rosa" (parceria de Chico Buarque com Edu Lobo de 1988). Estas camadas compositivas revelam uma pesquisa profunda e um respeito genuíno pelo universo musical em questão.

Participações especiais e momentos memoráveis

O projeto enriquece-se através de participações notáveis que conferem profundidade emocional ao trabalho. Ruy Guerra, parceiro histórico de Chico Buarque na composição de "Fado Tropical" (1973), oferece uma récita dos próprios versos em "O Que Será (À Flor da Terra)" (1976), acompanhado predominantemente por vozes a capella dos Escafandristas, gerando um momento de particular intimidade artística.

Destaca-se ainda a participação das cinco netas de Chico Buarque – Cecília, Clara, Irene, Lia e Teresa – que se uniram em estúdio pela primeira vez para interpretar "As Minhas Meninas" (1987) ao lado do quarteto. Esta gravação incorpora "Acalanto para Helena" (1971), a canção de ninar que o próprio Chico compôs para sua filha Helena, mãe de Clara e Cecília, estabelecendo uma conexão geracional tocante.

Encerramento que consolida a visão artística

O álbum "Escafandristas cantam Buarque" conclui-se com "Tempo e Artista" (1993), cuja gravação terna e reverente sublinha a realização fundamental do projeto: o quarteto remodela a obra do compositor conforme sua própria estética sofisticada, operando em uma época na qual a música de Chico Buarque transcendeu para o panteão dos maiores artistas, alcançando uma dimensão que vislumbra o infinito reservado apenas aos criadores que definem gerações.

Esta primeira incursão dos Escafandristas no registro fonográfico representa mais do que uma simples homenagem; constitui uma reafirmação da vitalidade e da profundidade do cancioneiro buarquiano, demonstrando sua capacidade de ressignificação permanente através de interpretes que compreendem tanto a forma quanto a essência de suas composições.

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