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Juliane Gamboa relança clássico de Ivan Lins sobre Marli Coragem

Juliane Gamboa relança clássico de Ivan Lins sobre Marli Coragem
Imagem: g1.globo.com. Uso informativo; os direitos pertencem ao seu titular.

Juliane Gamboa e Ivan Lins unem vozes em tributo musical

A parceria entre Juliane Gamboa e Ivan Lins ganha força com o lançamento do single "Coragem mulher", uma regravação que resgata história marcante da luta contra a violência policial no Brasil. A compositora e intérprete Juliane Gamboa, conhecida pelo aclamado álbum "Jazzwoman" (2024), convida o cantor e compositor Ivan Lins para revitalizar uma música até então pouco explorada no repertório do artista. O single será disponibilizado na quinta-feira, 20 de agosto, pela gravadora Biscoito Fino, em produção que traz novo brilho a um legado musical esquecido.

A história que inspirou a composição original

Em 13 de outubro de 1979, a empregada doméstica Marli Pereira Soares presenciou o assassinato de seu irmão Paulo, aos 18 anos, vítima de disparos executados por policiais do 20º Batalhão de Polícia Militar. O crime ocorreu no bairro de Vila Pauline, em Belford Roxo, no Rio de Janeiro, quando agentes invadiram a residência da família com intenção determinada de executar o jovem. A brutalidade do episódio poderia ter sido silenciada por intimidações e ameaças, mas a coragem de uma mulher transformou tragédia pessoal em denúncia pública.

Marli não se intimidou diante das ameaças contra sua vida e a de sua família. No dia seguinte ao crime, enfrentou a instituição responsável pela morte do irmão, retornando repetidas vezes ao batalhão e à delegacia para apontar e denunciar os executores. Sua atitude de resistência lhe rendeu o epíteto "Marli Coragem" nos registros da imprensa da época, consolidando sua figura como símbolo de resistência contra a impunidade policial.

Ivan Lins compõe em homenagem à determinação feminina

A coragem demonstrada por Marli Pereira Soares inspirou Ivan Lins a criar, em parceria com o letrista Vitor Martins, a canção que permaneceria como relíquia musical discreta. O próprio Ivan Lins lançou a música no álbum "Novo tempo" em 1980, poucos meses após os eventos que marcaram a vida de Marli. Apesar da qualidade e relevância da composição, "Coragem mulher" tornou-se quase desconhecida, mesmo entre fãs dedicados de Ivan Lins, permanecendo fora dos holofotes por quase quatro décadas e meia.

Vitor Martins, o parceiro letrista, reconheceu a importância histórica daquele momento. Conforme relato do próprio Ivan Lins, a ideia surgiu da indignação com um fato praticamente inédito na história da segurança pública carioca: "Nunca tínhamos visto uma mulher peitar a Polícia Militar do Rio de Janeiro, que já tinha fama de muito violenta". A música representava não apenas uma homenagem, mas também um instrumento de proteção simbólica para Marli, cujas ameaças continuavam reais.

Juliane Gamboa descobre e ressignifica a composição

Ao pesquisar material inédito para seu próximo disco, Juliane Gamboa se deparou com essa joia musical esquecida. A descoberta a tocou profundamente, não apenas pela história de Marli Pereira Soares, mas pela constatação de que permanecia desconhecida mesmo dentro do movimento negro, ao qual a artista se dedica há anos. Para Juliane, a narrativa musical se conectava intimamente com sua própria trajetória: "Tudo o que essa música simboliza tem muito a ver com quem eu sou, com a história das mulheres da minha família".

A decisão de gravar "Coragem mulher" em colaboração com o próprio Ivan Lins transformou-se em ato de ressignificação cultural. A produção musical foi conduzida por Diego do Valle, com arranjos e produção executados no estúdio da Biscoito Fino no Rio de Janeiro. Juliane Gamboa assumiu a direção musical da gravação, garantindo que cada nota refletisse a urgência e relevância da mensagem.

Contexto de tragédia: a família de Marli além de 1979

A história de Marli Pereira Soares não se encerra na coragem demonstrada em 1979. Nascida em 1954 na Favela do Pinto, Marli carrega em sua trajetória marcas profundas de duas mortes provocadas pela polícia. Exatamente 14 anos após denunciar os executores de seu irmão Paulo, em 13 de janeiro de 1993, Marli perdeu seu filho Sandro, então com apenas 15 anos, também assassinado por um policial. Caso esteja viva, Marli hoje conta com 72 anos de vida marcada por luto e luta.

Diferentemente do que ocorreu após a morte de Paulo, quando Ivan Lins e Vitor Martins criaram "Coragem mulher", o assassinato de Sandro em 1993 não recebeu similar homenagem musical. O silêncio que cercou esse segundo crime na família ilustra como histórias de violência policial frequentemente desaparecem da memória coletiva, especialmente quando envolvem mulheres e famílias pobres.

A relevância política de "Coragem mulher" em 2026

Ivan Lins reafirma a importância da reedição da canção no contexto contemporâneo. Para o artista, a música representa muito mais que nostalgia: "Tenho muita esperança de que a Juliane consiga, através dessa canção, mexer com as pessoas. Tudo é política em arte, e é importante que as novas gerações se comprometam a melhorar o Brasil no sentido humanístico". O cantor observa que problemas estruturais persistem e se amplificam: "A intolerância racial, social, e religiosa cresce no mundo todo. Canções como essa são cada vez mais necessárias".

A luta de "Marli Coragem" ressurge em 2026 através da gravação de Juliane Gamboa, ecoando passado e presente. O single representa ato de resistência cultural, recuperando memória de mulher que enfrentou a máquina estatal para buscar justiça, resgatando narrativa que havia sido sepultada nas páginas amareladas de jornais antigos. Para Juliane Gamboa e Ivan Lins, a música torna-se instrumento de reconhecimento tardio e chamado para que novas gerações compreendam a importância de combater a violência institucionalizada.

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