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Miami se torna refúgio dos ultrarricos com imóveis acima de Nova York

Miami se torna refúgio dos ultrarricos com imóveis acima de Nova York
Imagem: g1.globo.com. Uso informativo; os direitos pertencem ao seu titular.

A ascensão de Miami como epicentro da riqueza extrema

Miami consolidou-se como o novo refúgio preferido dos ultrarricos do mundo. A transformação da cidade do sul da Flórida em destino cobiçado pelos bilionários aconteceu de forma acelerada nos últimos anos, especialmente durante e após a pandemia de covid-19. Enquanto alguns imaginavam Nova York como o topo inconteste da hierarquia urbana americana, dados recentes revelam que a região de Miami, Ft. Lauderdale e Palm Beach, conhecida como Costa Dourada, superou a metrópole nova-iorquina em custo de vida em aproximadamente 5%.

O fenômeno dos ultrarricos escolhendo Miami não é acidental. Executivos de gigantes tecnológicas, fundadores de empresas bilionárias e gestores de fundos de investimento migraram para a Flórida em busca de benefícios específicos que a região oferece. O jornalista E. B. Solomont, especialista em mercado imobiliário residencial do The Wall Street Journal, explica que "existe uma grande quantidade de pessoas de alta renda que se mudaram para a Flórida, em busca dos benefícios oferrecidos pela vida em Miami".

Os personagens ilustres e suas mansões recordistas

Em março, Mark Zuckerberg, fundador do Facebook, realizou uma compra histórica na cidade. Ele desembolsou US$ 170 milhões (aproximadamente R$ 872 milhões) por uma mansão em construção com quase 2,8 mil metros quadrados localizada na ilhéu particular de Indian Creek. Esse valor estabeleceu um novo recorde para propriedades vendidas em Miami.

Contudo, este pode ser apenas um preço intermediário. O corretor de títulos mobiliários John Devaney colocou à venda uma propriedade em Key Biscayne pelo valor recorde de US$ 237 milhões (aproximadamente R$ 1,2 bilhão). A mansão de Devaney possui uma particularidade cinematográfica notável: aparece no filme clássico Scarface (1983), dirigido por Brian de Palma. Na trama, ela funciona como a residência do narcotraficante Frank López, sendo o local onde o público conhece a icônica personagem Elvira, interpretada por Michelle Pfeiffer, descendo em um elevador de vidro.

A lista de magnatas que migraram para Miami inclui Jeff Bezos, fundador da Amazon; Larry Page e Sergei Brin, criadores do Google; e Ivanka Trump, filha do presidente americano Donald Trump, acompanhada de seu marido Jared Kushner. Segundo Solomont, "quando você tem um, dois ou três líderes empresariais influentes que se mudam, outros observarão os benefícios e irão segui-los".

Os atrativos fiscais e climáticos de Miami

Mayi De la Vega, fundadora da One Sotheby's International Realty, uma das mais renomadas corretoras de imóveis ultraluxuosos do sul da Flórida, destaca os principais diferenciais: "A criminalidade é baixa, o clima é ótimo, há belas comunidades e não existem impostos estaduais". Esta última característica revela-se particularmente atraente para pessoas com patrimônio extraordinário.

A Flórida diferencia-se de Estados como Nova York, Califórnia e Illinois por não cobrar imposto estadual sobre renda. Durante a pandemia, o Estado também tomou decisões política mais liberais em relação às restrições de mobilidade, reabrindo estabelecimentos e eliminando obrigatoriedade de máscaras quando outros Estados mantinham medidas mais rigorosas. Essa postura transformou a região em destino ideal para indivíduos de altíssima renda buscando jurisdições com menor intervenção estatal.

Solomont acrescenta: "Somando-se a isso o fato de que a Flórida é um paraíso fiscal cujos moradores não pagam imposto estadual, Miami se tornou imensamente popular, não apenas pelo local e pelo estilo de vida, mas devido a este grande incentivo tributário".

Indian Creek: o bunker dos multimilionários

O local mais emblemático do mercado de ultraluxo em Miami é a ilhéu particular de Indian Creek. Conhecida popularmente como o "bunker dos multimilionários", a região abriga as mansões de Zuckerberg, Bezos e Ivanka Trump. Apesar de possuir área similar ao Central Park de Nova York, Indian Creek funciona como uma comunidade independente com próprio prefeito e força policial privada. O acesso ocorre através de uma discreta ponte branca vigiada por duas guaritas de segurança.

De la Vega explica os motivos da exclusividade: "Porque, como se trata de uma ilha particular, ela tem muitas comodidades, lotes grandes e está rodeada de água, o que faz dela um paraíso para os proprietários de barcos, além de ter uma segurança incrível". A ilha funciona como um enclave fortemente protegido com campo de golfe próprio, onde terrenos são comercializados por aproximadamente US$ 200 milhões.

Além de Indian Creek, outras localidades concentram propriedades ultraluxuosas. North Bay Road, uma rua com 6,5 quilômetros de extensão em Miami Beach, abriga casarões de celebridades como Shakira e do casal David e Victoria Beckham. O The Wall Street Journal calculou que North Bay Road concentra aproximadamente US$ 1,7 bilhão em propriedades, transformando-a na rua com maior valor patrimonial de todos os Estados Unidos.

O fenômeno da desigualdade e os preços exponenciais

Uma das causas fundamentais para a multiplicação dos preços imobiliários de ultraluxo encontra-se na concentração extraordinária de riqueza. De acordo com o "Índice da Desigualdade", elaborado por economistas da Universidade da Califórnia em Berkeley e da Escola de Economia de Paris, o patrimônio do 0,1% mais abastado da população multiplicou-se por quase 13 vezes nos últimos 50 anos. O estudo classifica neste segmento pessoas que detêm patrimônio superior a US$ 43 milhões.

Solomont observa que essa disponibilidade massiva de recursos distorce completamente os valores de mercado: "Os corretores de imóveis dizem que o valor é aquilo que alguém está disposto a pagar. Para você e para mim, pagar US$ 1 milhão por um imóvel pode ser inconcebível. Para outros, pagar US$ 10 milhões seria um exagero. Mas, quando você tem bilhões na sua conta, comprar um imóvel de US$ 60 milhões pode não ser algo excepcional". Frequentemente, essas transações ocorrem com pagamento em dinheiro vivo.

De la Vega afirma que o mercado imobiliário de Miami entrou em "uma nova era dos 'imóveis troféus'". As vendas de casas acima de US$ 60 milhões aumentam continuamente. Em 2025, seu último ano completo, foram registradas vendas totalizando mais de US$ 517 milhões, exclusivamente de imóveis acima de US$ 60 milhões.

O efeito cascata nos preços para população comum

O crescimento exponencial do mercado de ultraluxo repercute diretamente nos preços das propriedades de menor valor. Os dados de 2024 do Escritório de Estatísticas dos Estados Unidos indicam que o custo de vida na região de Miami, Ft. Lauderdale e Palm Beach ultrapassou Nova York. Os preços ao consumidor no sul da Flórida aumentaram em 36% desde 2019, segundo o Escritório de Estatísticas Trabalhistas dos Estados Unidos.

O canal Fox Business noticiou que os preços de moradia dispararam 79% desde a pandemia, enquanto o prêmio médio anual de seguro residencial da região constitui o mais elevado do país. Essa espiral de valorização provoca paradoxo: após o pico de chegada de novos moradores durante a pandemia, o sul da Flórida vem perdendo população nos últimos anos devido aos custos prohibitivos.

Questionamentos sobre a sustentabilidade do mercado

Apesar da aparente solidez do mercado de ultraluxo, analistas questionam se os preços refletem realidade econômica ou representam uma bolha especulativa. Solomont levanta a questão: "De certa forma, as pessoas querem saber se existe uma bolha. É realista pagar US$ 75 milhões por uma casa perto da água?".

O fenômeno multiplicador da moda também atua como fator determinante. De la Vega menciona que proprietários frequentemente decidem: "esta pessoa tem o mesmo dinheiro que eu e comprou ali, será que eu também devo comprar ali?". Este comportamento de manada amplifica ofertas e acelera valorização em regiões específicas de ultraluxo.

Miami consolidou-se como símbolo do novo capitalismo global, onde bilionários estabelecem comunidades isoladas, fisicamente separadas da população comum. Indian Creek e North Bay Road representam o topo de uma pirâmide econômica sem precedentes, onde transações imobiliárias refletem não necessidade de moradia, mas acúmulo de ativos pelos mais ricos do planeta.

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