Témiscaming luta para sobreviver às tarifas de Trump

A ameaça das tarifas americanas sobre Témiscaming
As tarifas de Trump impuseram uma crise sem precedentes à pequena cidade de Témiscaming, no Quebec, que depende quase totalmente de sua indústria madeireira. Em agosto, os Estados Unidos implementaram uma alíquota de 50% sobre aproximadamente C$ 28 bilhões em produtos canadenses, incluindo celulose, papelão e papel — categorias que representam a base econômica local. A fábrica de papel da cidade, que envia cerca de 75% de sua produção para o mercado americano, foi forçada a paralisar suas operações indefinidamente, deixando 360 funcionários desempregados.
A decisão da RYAM, proprietária americana da instalação desde 2017, de manter a fábrica em paralisação por razões econômicas marca um dos piores momentos para a comunidade desde os anos 1970. As tarifas de Trump não apenas afetaram a indústria de papel, mas também geraram um efeito cascata devastador na economia local, impactando serrarias, empresas de transporte e fornecedores regionais.
Impacto na vida dos moradores e desvalorização imobiliária
Para os residentes de Témiscaming, as consequências vão além da perda de renda. O valor dos imóveis desabou praticamente da noite para o dia, com placas de venda espalhando-se por toda a cidade. Nadine Suley, funcionária da fábrica, descreve a situação como um ataque pessoal à comunidade inteira. Ela comenta que não se trata simplesmente de um emprego, mas de um modo de vida construído ao longo de mais de um século ao redor da indústria madeireira.
O temor de que profissionais essenciais — desde funcionários de supermercados até médicos dos pequenos hospitais — abandonem a cidade aumenta a cada dia que passa. Ronnie Raymond, também trabalhador da indústria há gerações, expressa a preocupação generalizada: se a fábrica encerrar suas atividades, Témiscaming transformar-se-á em uma cidade fantasma, sem perspectivas de emprego para ninguém.
Atualmente, os funcionários conseguem se manter através de pagamentos parciais garantidos pelo programa de alívio tarifário do governo canadense, mas essa ajuda é temporária. O inverno que se aproxima preocupa ainda mais os moradores, pois as temperaturas abaixo de zero poderiam danificar os equipamentos paralisados, tornando a reabertura da fábrica ainda mais difícil e custosa.
A situação econômica nacional versus realidades locais
Embora a economia canadense como um todo tenha resistido à guerra comercial com os Estados Unidos, mantendo uma taxa de desemprego estável em torno de 6,5%, a análise mais detalhada dos dados revela focos severos de dificuldade em setores específicos. Indústrias ligadas a aço, alumínio, automóveis e produtos florestais enfrentam tarifas americanas que chegam a 50%, criando crises regionais que contrastam com a aparente estabilidade nacional.
Stéphane Lefebvre, funcionário e líder sindical cuja família trabalha na fábrica há gerações, questiona se o governo Carney está fazendo o suficiente para apoiar comunidades como Témiscaming. Ele argumenta que se Toronto, Montreal ou Vancouver enfrentassem uma perda de 10% de seus empregos, haveria pressão política imediata. No entanto, o setor florestal parece ter ficado em segundo plano nos esforços de intervenção governamental.
O governo federal disponibilizou C$ 400 milhões para apoiar o setor florestal em áreas rurais e remotas, além de programas de capital de giro para empresas afetadas pelas tarifas. Não obstante, críticos argumentam que essas medidas são insuficientes comparadas aos quase C$ 9 bilhões anunciados para os setores siderúrgico e automobilístico de Ontário.
Histórico de resistência: a lição dos anos 1970
Témiscaming não é estranha às crises econômicas. Em 1973, quando o então proprietário americano ameaçou encerrar as operações, a comunidade conseguiu o impossível: funcionários e gestores locais se uniram, aceitaram um corte salarial de 10% e compraram coletivamente a empresa. Essa mobilização transformou a fábrica em Tembec, uma companhia de propriedade quebequense que expandiu suas operações pela América do Norte e França.
Frank Dottori, então engenheiro responsável pela mobilização dos funcionários na década de 1970, lembra que suas ambições foram consideradas absurdas. Ele foi educadamente dispensado quando procurou apoio do governo de Quebec pela primeira vez. Apesar da resistência inicial, o grupo conseguiu executar seu plano com ajuda do sindicato, experiência em gestão e determinação extraordinária.
Hoje, com mais de 80 anos, Dottori observa que a nova geração de trabalhadores enfrenta desafios ainda maiores. Ele afirma que embora seja improvável encontrar alguém com o mesmo carisma do líder daquela época, os moradores podem conseguir repetir o feito se se organizarem adequadamente. Contudo, Dottori ressalta que a suspensão das tarifas americanas é fundamental para que qualquer reabertura da fábrica seja economicamente viável no longo prazo.
Esforços atuais para recompra e soluções
Atualmente, trabalhadores e moradores de Témiscaming estão mobilizando uma coalizão para recomprar a fábrica da RYAM, esperando repetir o sucesso dos anos 1970. Lefebvre afirma que espera que
