Nos últimos sete anos, um clube de caminhadas cruzou a Alemanha, escalando montanhas, seguindo riachos e caminhando por florestas frondosas. No entanto, foi a mais recente excursão do grupo no estado oriental da Saxónia, na Alemanha, que os empurrou para um território desconhecido.
Enquanto os membros do grupo, muitos deles sírios que vivem em várias regiões da Alemanha, atravessavam a paisagem espetacular da região, foi feita uma chamada à polícia para denunciar um suposto grupo de migrantes, levantando-se suspeitas de que tinham chegado através da vizinha fronteira checa.
“Foi um pouco estranho. É estranho que as pessoas nos denunciem à polícia quando estamos a fazer a coisa mais tipicamente alemã que se pode fazer, que é fazer caminhadas na floresta”, referiu Ayham Tahan, um dos organizadores das caminhadas, citado pelo The Guardian.
As raízes do clube remontam a 2016, quando um grupo de voluntários, muitos deles originários da Síria, começou a organizar atividades regulares que muitas vezes giravam em torno de caminhadas.
We are a registered hiking club in Germany, mostly Syrians from all over Germany.
We went on a hike in Saxony Switzerland today and came back to our hostel to find police waiting for us.
Someone called police that a group of foreigners was seen and reported as illegal refugees! pic.twitter.com/0K4v9ju6Hd
— Riham Alkousaa (@RihamKousa) November 9, 2023
“Isto é algo que costumávamos fazer na Síria, para descobrir o interior da Síria. E então, quando viemos para a Alemanha, tivemos o mesmo tipo de pergunta: ‘Por que não fazemos isso aqui também?'”, questionou Tahan, que vive na Alemanha há nove anos.
A iniciativa foi um sucesso, oferecendo aos participantes a oportunidade de explorar a Alemanha e ao mesmo tempo conhecer novas pessoas. Assim que o grupo se tornou um clube registado, organizando caminhadas de dias inteiros para recém-chegados e alemães.
No início de novembro, o grupo visitou pela segunda vez os picos escarpados da Suíça Saxónica. Cerca de 55 pessoas inscreveram-se para a viagem de quatro dias para explorar as formações rochosas que há muito tempo são uma atração turística no leste da Alemanha.
O primeiro dia foi passado nas montanhas. Depois de passarem por uma pequena aldeia, regressaram ao albergue onde estavam hospedados, mas encontraram o caminho bloqueado por um carro da polícia.
“Acho que alguém ligou para a polícia e disse: ‘Ah, vimos muitas pessoas a andar, parecem refugiados ou migrantes’. A maioria de nós éramos sírios, falávamos em árabe, então eles ouviram uma língua que não reconheceram e chamaram a polícia”, contou Tahan.
A polícia disse que tinha algumas perguntas e concordou em encontrar-se com o grupo no seu albergue, em vez de questioná-los ao longo do caminho. “Eles estavam apenas a fazer o seu trabalho. Foram muito simpáticos”, referiu ainda.
Tahan explicou às autoridades onde o grupo costumava caminhar e esclareceu que todos os membros estavam legalmente no país e que a maioria deles eram cidadãos alemães. Além disso, deu conta ainda os locais onde o grupo pretende passar os próximos dias na região. “E eles apenas disseram: ‘Desejamos-lhe uma boa estadia’. E foram embora”, disse.
No entanto, a notícia de que alguém tinha chamado a polícia dividiu o grupo. “Muitos dos nossos participantes ficaram muito zangados. Algumas pessoas ficaram realmente ofendidas, achando o sucedido ‘racista’. E outros disseram que este é um comportamento alemão muito típico, como se eles tivessem visto muitas pessoas e não se sentissem confortáveis com a língua falada, então chamaram a polícia”, relatou Tahan.
O caso remonta a novembro, quando o ‘tweet’ de um membro do clube sobre o incidente se ter tornado viral. “Para nós a prioridade era apenas terminar a caminhada e a atividade. Eu estava preocupado que talvez alguns moradores locais soubessem disso e soubessem onde estamos hospedados”, adiantou.
O incidente ocorre num momento em que as atitudes em relação à migração parecem estar a endurecer na Alemanha. Este mês, a Alternativa para a Alemanha (AfD), anti-imigrante e antimuçulmana, obteve uma grande vitória na Saxónia – dias depois de responsáveis dos serviços de informação terem classificado a AfD como “firmemente extremista de direita” – somando-se ao seu punhado de vitórias no antigo leste comunista.
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