Falta de perspectiva alimenta protestos de jovens em toda Europa

Protestos de jovens na Europa ganham força em múltiplas cidades
Uma onda de protestos de jovens na Europa varreu o continente nas últimas semanas, transformando ruas de cidades como Milão, Marselha, Madri e Paris em cenários de mobilização social intensa. No sábado 31 de outubro, mais de 300 mil manifestantes desceram às ruas na França, com 290 presos segundo o Ministério do Interior francês. Os protestos também atingiram a Alemanha, onde confrontos ocorreram em Frankfurt, Berlim, Colônia e Hamburgo, com polícia utilizando canhões de água para dispersar os manifestantes.
Embora iniciados de forma pacífica, muitos dos protestos de jovens na Europa evoluíram para cenas de violência e saques. Há acusações de que grupos de esquerda radical provocaram tumultos intencionalmente, além de relatos sobre uso excessivo de força policial. O continente enfrenta um clima de instabilidade social e política sem precedentes, com manifestações simultâneas em diversos pontos.
Protestos significativos também marcaram presença em Roma, Florença, Lisboa e Bruxelas. Em Madri, um acampamento de barracas ocupa praça central desde fim de setembro. A capital portuguesa viu dezenas de milhares de jovens em marcha no início do mês. Na Bélgica, confrontos envolveram uso de gás lacrimogêneo e canhões de água. Na Albânia, manifestantes exigem renúncia do primeiro-ministro Edi Rama.
Jovens menores de idade lideram mobilizações em toda a Europa
Um aspecto que chama atenção é a demografia dos protestos de jovens na Europa: muitos participantes são extremamente jovens, com número elevado de menores entre os detidos. Em Barcelona, mais da metade dos presos no último fim de semana tinha menos de 18 anos. Em Milão, menores também figuravam entre os detidos pela polícia após confrontos.
Os governos europeus tentam distinguir manifestantes pacíficos de responsáveis por saques e tumultos. As reivindicações pacíficas concentram-se em educação, desigualdades sociais e aumento do custo de vida, embora cada país apresente demandas específicas. A participação massiva de menores levanta questões sobre as motivações profundas desses protestos de jovens na Europa.
Organização via redes sociais: a 'tiktokização' dos protestos
As manifestações frequentemente organizam-se de forma improvisada através do TikTok e Instagram. O ministro do Interior belga criticou a "tiktokização" dos protestos. Sindicatos estudantis participam, mas jovens também se inspiram em mobilizações de outros países e continentes.
A Índia influencia esses protestos de jovens na Europa através do Partido do Povo Barata (CJP), movimento da geração Z surgido em maio de 2024 contra o sistema educacional indiano. A França, onde a atual onda começou fim de setembro com reclamações sobre falta de funcionários e precariedade escolar, tornou-se principal fonte de inspiração europeia.
Em Barcelona, hashtag #InstitutsIndignats nas redes sociais referencia o francês Lycées Indignés. O estudante grego Yiannis Papanikolaou, 17 anos, afirmou à AFP que acredita que mudanças podem ocorrer por causa dos protestos de jovens na Europa iniciados pela França, que impulsionará a Grécia a agir.
Estagnação econômica e preocupações futuro alimentam mobilização
Além de educação, muitos jovens europeus sentem efeitos de estagnação econômica. Preocupações incluem meio ambiente, inteligência artificial reduzindo oportunidades de emprego, e aumento acelerado do custo de vida impossibilitando conclusão de estudos, compra ou aluguel de moradia para formar família.
Em Madri e Lisboa, insatisfação concentra-se em preços exorbitantes de imóveis. Campanhas no Instagram português afirmaram "já chega" e convocaram população a sair às ruas seguindo exemplo espanhol. Carolina Cruz, 26 anos, doutoranda em biologia, disse à Reuters que corre risco de perder moradia com término de contrato de aluguel. "Sou primeira pessoa da minha família em programa doutorado e, mesmo com tudo estudado, ainda não consigo me sustentar", afirmou.
Riccardo, 22 anos, que participa dos protestos de jovens na Europa em Milão, declarou à AFP que objetivo é fazer população discutir esses problemas novamente. A insatisfação não limita-se à esquerda: apoiadores de Marine Le Pen relataram à BBC preocupações com "imigração descontrolada" e segurança nas ruas, além do custo de vida.
Crises sucessivas e simultâneas na Europa
Mark Leonard, diretor do Conselho Europeu de Relações Exteriores, afirma que Europa enfrenta acúmulo de crises sucessivas e simultâneas nunca devidamente resolvidas. Essa insatisfação reprimida começa a transbordar para ruas.
"Uma crise sobrepõe-se à outra", disse à BBC. Menciona crise financeira 2007-2008, crise migratória 2015, crise ambiental, pandemia COVID-19, inflação após invasão russa da Ucrânia em 2022, e guerra no Golfo. Essas crises originaram diferentes "tribos", com algoritmos de redes sociais reforçando polarização.
Nathalie Tocci, ex-assessora governo italiano e professora de ciência política Johns Hopkins, afirmou à BBC que não devemos surpreender-nos com protestos ou participação jovem. "Jovens são muito engajados, participam diferentemente, ligados à mobilização popular", disse. Cita "Fridays for Future" e manifestações contra ações Israel em Gaza após 7 de outubro.
Tocci menciona movimento de protestos liderado por estudantes sérvios que derrotou Aleksandar Vučić nas eleições parlamentares. "Continuaram mobilizados por mais dois anos", afirmou, questionando quanto tempo novas manifestações conseguirão manter fôlego.
Saques, violência e divisões políticas nos protestos
Serviços de inteligência França e Bélgica afirmam que saques durante manifestações autorizadas são majoritariamente oportunistas, resultando de combinação de "violência gratuita" e vandalismo deliberadamente organizado por jovens grupos ultrarradicais de esquerda.
Na Itália, alguns usam termo "maranza" para descrever responsáveis por destruição. Na França, "casseurs" descreve destruidores, enquanto "racaille" refere-se a jovens urbanos marginalizados, frequentemente origem operária ou imigrante. Nicolas Sarkozy usou termo em outubro 2005 para descrever jovens infratores em Argenteuil.
Imprensa francesa questiona aliança informal entre militantes esquerda radical e moradores bairros desfavorecidos. Ambos sentem-se discriminados e denunciam uso excessivo força policial. Direita e centro francês, incluindo Macron, responsabilizam grupos radicais e "delinquentes". Marine Le Pen não estabeleceu relação entre violência e imigração.
Partidos contrários imigração europeus tentam explorar tumultos politicamente. Bélgica viu Vlaams Belang responsabilizar imigrantes, classificando tumultos como "importados" atribuindo-os à falta integração e políticas fronteiras abertas.
Próximas eleições e futuro dos protestos europeus
Novas manifestações de grande porte estão previstas para próximos dias França e Itália. Governos tentam conter violência com milhares presos, prometendo política "quem quebra, paga". Primeira-ministra italiana Giorgia Meloni responsabiliza pais por danos causados filhos menores com descontos benefícios sociais.
Principais países União Europeia realizarão eleições importantes próximos meses. Eleição presidencial francesa considerada mais decisiva para Europa. Marine Le Pen aparece sistematicamente à frente nas pesquisas. Avaliação é que tumultos nas ruas francesas beneficiam Le Pen graças ao discurso lei e ordem.
Espanha, Itália, Alemanha e Polônia veem partidos nacionalistas com boas pesquisas, prometendo restaurar ordem e orgulho nacional. Leonard acredita que populistas tornaram-se "empreendedores de crises", explorando instabilidade para atrair eleitores insatisfeitos.
Partidos tradicionais europeus enfrentam crise de liderança e legitimidade. Fato de tantas pessoas estarem protestando indica que não conseguiram lidar com problemas. Não está claro que novas eleições acabem insatisfação. França está polarizada; se Le Pen chegasse à Presidência, muitos preveem que opositores tomariam ruas em protesto.
Enfraquecimento do contrato social europeu
Europa moderna baseia-se em princípio de cidadãos pagarem impostos e cumprirem leis, recebendo em troca serviços públicos qualidade, segurança e sociedade estável regida por leis e normas. Esse "contrato social" está claramente enfraquecido.
Diante onda de insatisfação tomando ruas da Europa, tudo indica que protestos de jovens na Europa continuarão. As manifestações refletem não apenas insatisfação imediata com educação ou custo de vida, mas questionamento profundo sobre futuro que sociedades europeias oferecem à geração jovem. Sem resoluções substantivas para crises sucessivas que marcaram últimas décadas, a mobilização social deve permanecer como característica do cenário político europeu.
