Richarlison acusa Flávio Bolsonaro em disputa por ilha em Angra

Richarlison apresenta documentos sobre disputa pela posse de ilha em Angra
O atacante Richarlison de Andrade, jogador do Tottenham, voltou a se pronunciar sobre a disputa pela posse de ilha em Angra dos Reis no Rio de Janeiro, publicando um vídeo em que divulga documentos comprobatórios de seus direitos sobre o imóvel. A controvérsia envolve o senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) e o advogado Willer Tomaz, gerando uma complexa batalha judicial que se estende há anos.
Segundo informações divulgadas pelo jogador, a aquisição do imóvel ocorreu em 2020, quando Richarlison investiu aproximadamente R$ 10 milhões na compra da mansão localizada na Ilha Comprida, em Angra dos Reis. O atleta alega que, após sua recusa em vender a propriedade a Flávio Bolsonaro, o senador teria se associado ao advogado Willer Tomaz para obter os direitos sobre a área através de processos judiciais.
Cronologia do conflito e envolvimento de Flávio Bolsonaro
A tensão ganhou destaque público em 3 de outubro de 2025, quando Richarlison publicou uma mensagem nas redes sociais questionando Flávio Bolsonaro sobre o cumprimento de seus princípios morais e solicitando a devolução do imóvel. Meses depois, em 17 de outubro, o jogador forneceu mais detalhes sobre o envolvimento do senador na questão, afirmando que havia recebido propostas para vender a propriedade.
De acordo com reportagens anteriores, Flávio Bolsonaro visitou a mansão em julho de 2020, acompanhado pelo ex-senador Wilder Morais. Uma segunda visita teria ocorrido em janeiro de 2021, dessa vez na companhia do advogado Willer Tomaz. Naquela ocasião, conforme relatos do então ocupante do imóvel Antônio Marcos Pereira Silva, Tomaz teria demonstrado interesse em adquirir a propriedade.
Documentação e investimentos apresentados por Richarlison
No vídeo publicado na quarta-feira, 21 de janeiro, Richarlison respondeu a um desafio de Willer Tomaz, que havia solicitado comprovantes de seus direitos sobre o imóvel. O atacante exibiu contratos de cessão de direitos possessórios e recibos de pagamentos realizados a antigos ocupantes da área. Segundo suas declarações, dos R$ 10 milhões investidos, R$ 4,66 milhões foram destinados ao pagamento de ocupantes anteriores, sendo o restante alocado em reformas e segurança da propriedade.
Além disso, Richarlison apresentou números de processos administrativos da Secretaria do Patrimônio da União (SPU). De acordo com o jogador, um pedido de regularização enviado em setembro de 2021 permaneceu sem conclusão por aproximadamente dez meses, enquanto uma solicitação associada ao grupo de Willer Tomaz teria sido processada em apenas um único dia, em julho de 2022. Esta discrepância levou Richarlison a questionar a lisura dos procedimentos administrativos envolvidos.
Processo judicial e decisões das instâncias
O conflito chegou ao sistema judiciário em 2022, quando a empresa M Locadora de Veículos e Transportes Turísticos Ltda. entrou com uma ação de reintegração de posse contra a Sport 70, empresa ligada a Richarlison, além de YTA Consultoria e Renato Rocha Velasco. A M Locadora alegava possuir direitos legítimos sobre a área, enquanto o grupo do atacante defendia a validade da transação realizada com os ocupantes originais.
Durante os procedimentos judiciais, Maria Alice Menna, representante da M Locadora com então 78 anos de idade, contestou a documentação utilizada na negociação do imóvel, alegando ter sido coagida a assinar documentos e que sua assinatura havia sido falsificada. Contudo, estas acusações foram questionadas ao longo do processo. Na legenda do vídeo recente, Richarlison acusou o grupo vinculado a Willer Tomaz de ter "ludibriado uma viúva de 78 anos para tomar a nossa ilha".
Em maio de 2023, o juiz Ivan Pereira Mirancos Junior extinguiu a ação principal sem apreciar o mérito do caso. A decisão fundamentou-se em uma divergência entre os próprios representantes da M Locadora: um sócio afirmava que a empresa mantinha a posse do imóvel, enquanto o outro sustentava não ocupá-la desde 1990. Posteriormente, em junho de 2025, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) manteve um posicionamento favorável à empresa associada a Willer Tomaz. O processo foi definitivamente arquivado em 23 de janeiro de 2026.
Posicionamentos dos envolvidos
Flávio Bolsonaro não comentou as recentes declarações de Richarlison. Em 2022, o senador já havia negado qualquer envolvimento direto na disputa, afirmando ocupar apenas o papel de testemunha no processo judicial, não sendo parte na ação.
Willer Tomaz, por sua vez, contestou as acusações através de nota enviada à imprensa. Segundo sua assessoria, os documentos exibidos por Richarlison comprovam que o jogador efetuou pagamentos a posseiros e não aos proprietários legítimos dos direitos. O advogado também apontou divergências nos valores declarados: enquanto o vídeo menciona R$ 4,66 milhões, a Sport 70 teria registrado R$ 2,6 milhões nos autos judiciais. Tomaz destacou possuir escritura registrada, certidão da SPU e decisões favoráveis em todas as instâncias, inclusive no STJ, com trânsito em julgado.
Na mesma nota, Tomaz informou que Richarlison já é réu em Brasília por insistir em acusações sem fundamentação. O advogado também mencionou que o negócio passou por inquérito policial que foi arquivado por ausência de indícios de crime.
Investigações e possível envolvimento com lavagem de dinheiro
Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz são investigados pelo Supremo Tribunal Federal (STF) sob suspeita de lavagem de dinheiro. Conforme informações da Polícia Federal, Flávio teria sido cadastrado como "usuário master" de uma conta bancária pertencente a uma empresa de Tomaz. Os dois também realizaram viagens conjuntas em aeronave administrada por empresa de Daniel Vorcaro. Ambos negam as acusações e afirmam não manter negócios em conjunto.
Aspectos legais da propriedade
Um ponto crucial a ser compreendido é que a Ilha Comprida em Angra dos Reis pertence à União Federal. Portanto, a disputa judicial não se refere à propriedade em si, mas aos direitos de posse e ocupação da área. Este detalhe jurídico é fundamental para entender a complexidade do caso e os procedimentos administrativos envolvidos junto à Secretaria do Patrimônio da União.
Intenções futuras de Richarlison
O jogador afirmou estar disposto a continuar os trâmites judiciais na tentativa de recuperar o imóvel ou obter indenização pelos valores investidos. Richarlison também prometeu destinar parte de uma eventual compensação financeira ao hospital de Nova Venécia, no Espírito Santo, sua cidade natal. No vídeo da quarta-feira, o atleta revelou ter procurado Flávio Bolsonaro no início do ano para tentar resolver o impasse, mas não recebeu retorno. "Eu estou aqui lutando pelo que é meu, que é direito meu, e vou lutar até o final", declarou.
Além de reivindicar a devolução da propriedade, Richarlison cobra uma investigação sobre a atuação dos envolvidos na disputa pelos direitos de ocupação. Conforme informações da Folha de S.Paulo, o coletivo Derrubando Muros apresentou uma representação ao Ministério Público Federal (MPF) solicitando a apuração de possíveis irregularidades na regularização do terreno que pertence à União.
