Jornal Online
Tecnologia

Vício em celular leva pessoas à terapia profissional

Vício em celular leva pessoas à terapia profissional
Fonte: g1.globo.com/saude/noticia/2026/06/28/eu-ficava-ate-14h-por-dia-no-celular-estou-fazendo-terapia-para-combater-meu-vicio.ghtml

A realidade do vício em celular nos dias atuais

O vício em celular tornou-se uma preocupação crescente entre profissionais de saúde mental ao redor do mundo. Pessoas como Marios, um personal trainer em Londres, procuram tratamento especializado para combater a dependência cada vez mais intensa de seus dispositivos móveis. A situação é tão crítica que muitos centros de reabilitação relatam um aumento significativo no número de pacientes buscando ajuda para controlar o uso excessivo de smartphones.

Em um dia particularmente difícil, Marios pode passar mais de 14 horas olhando para a tela de seu celular, especialmente utilizando aplicativos de redes sociais como Instagram. Essa compulsão o levou a buscar terapia profissional através de um curso de 12 sessões com um especialista em dependência digital. Durante uma sessão de terapia, quando recebeu uma mensagem de WhatsApp, sentiu uma vontade avassaladora de responder imediatamente, demonstrando como o vício em celular pode interferir até mesmo em momentos dedicados ao tratamento.

Estatísticas preocupantes sobre o uso de smartphones

Os dados sobre o vício em celular revelam um panorama alarmante. Pesquisa recente realizada pela Deloitte com mil adultos mostrou que 70% dos entrevistados acreditam que passam tempo demais em seus telefones. Mais impressionante ainda, sete em cada 10 participantes afirmaram que gostariam de reduzir significativamente seu tempo de tela.

O vício em celular ganhou proporções tão grandes que centros de tratamento especializados reportam mudanças drásticas em seus dados. De acordo com os UK Addiction Treatment Centres (UKAT), que atendem aproximadamente 3,5 mil pessoas por ano, um em cada três clientes tratados por dependência de drogas também apresentava dependência secundária de telefone no ano passado. Em comparação, em 2019, essa proporção era de apenas um em cada dez clientes. Alguns pacientes chegam a abandonar o tratamento para seu vício principal simplesmente porque se recusam a entregar seus dispositivos ao ingressar na clínica.

Como o cérebro desenvolve vício em celular

A explicação científica para o vício em celular reside na neurobiologia do nosso cérebro. Kelly Watson, terapeuta-chefe do centro Steps Together em St Helens, explica que nosso cérebro possui um sistema de recompensa sofisticado. Sempre que recebemos uma mensagem, uma curtida em redes sociais ou descobrimos uma informação nova, a dopamina é liberada. Essa substância química regula o prazer e a motivação, criando um ciclo de recompensa contínua.

Com o tempo, para algumas pessoas, a necessidade desse estímulo se torna excessiva e fora de controle. O vício em celular afeta o cérebro de forma similar a outras dependências, fazendo com que horas ou até dias desapareçam no mundo digital. Watson enfatiza que essa condição pode afetar qualquer pessoa, independentemente de sua origem socioeconômica, pois todos possuem circuitos cerebrais semelhantes vulneráveis à dependência.

Histórias de recuperação e tratamento

James, um homem de 48 anos em tratamento no centro Steps Together em Leicester, exemplifica como o vício em celular pode se manifestar de maneiras sérias. Inicialmente, ele procurou ajuda por dependência de álcool, mas logo ficou evidente que seu vício em celular estava completamente fora de controle. Após perder seu emprego, James passou dias inteiros rolando redes sociais, verificando sites de notícias e se fixando em eventos globais. A necessidade de checar curtidas e comentários em suas postagens o mantinha acordado durante a noite, criando um ciclo obsessivo de consumo digital.

Outro caso inspirador envolve Jenny, membro do Internet and Technology Addicts Anonymous (ITAA). No auge de seu vício em celular, ela não dormia por dias e mal comia ou bebia. Sua dependência era tão severa que perdia partes inteiras de sua vida. Inicialmente, ela não percebeu a gravidade de seu vício até experimentar a abstinência e precisar pedir a amigos e familiares para manter seus dispositivos trancados. Após anos buscando ajuda, Jenny encontrou o programa de 12 passos do ITAA e agora está em recuperação há cinco anos, evitando completamente o consumo de conteúdo online.

O programa de 12 passos para vício em celular

Criado em 2017, o Internet and Technology Addicts Anonymous é uma organização global inspirada nos Alcoólicos Anônimos. Seu objetivo é ajudar pessoas viciadas em telefone e internet a se reconectar com a vida real e com outras pessoas. Membros como Tom relatam experiências devastadoras onde passavam 10 horas seguidas consumindo conteúdo através de múltiplas telas simultaneamente. O vício em celular levou Tom a perder seu negócio e seu senso de propósito, chegando até a ideações suicidas. Através do programa, ele gradualmente reconstruiu sua vida, encontrando alegria em atividades ao ar livre e exercícios físicos.

Centros especializados em reabilitação digital

Rainford Hall, um centro residencial de reabilitação localizado em St Helens no norte da Inglaterra, trata pessoas com diversos vícios, incluindo aqueles com vício em celular. O Steps Together, operado neste local histórico, oferece programas que combinam terapia individual e em grupo. Os pacientes passam pelo menos 28 dias na instalação residencial, onde trabalham especificamente nas questões psicológicas que impulsionam seu vício em celular.

Kelly Watson trabalha com os clientes para reduzir gradualmente o tempo de tela, ajudando-os a identificar e processar os pensamentos e sentimentos que surgem quando não estão com seus dispositivos. Muitas vezes, o problema subjacente é que a vida pode parecer difícil demais, e a rolagem contínua de telas oferece uma forma de dissociação da realidade. Os terapeutas relatam que quando os pacientes chegam ao centro, geralmente estão preocupados e confusos sobre abrir mão de seus telefones, frequentemente alegando que precisam deles para trabalho ou para manter contato com a família.

Estratégias práticas para combater o vício em celular

Hilda Burke, psicoterapeuta credenciada pela British Association of Counselling and Psychotherapy, escreveu recentemente o Phone Addiction Workbook após observar um aumento crescente de clientes procurando ajuda. Ela recomenda que pessoas preocupadas com seu tempo de tela analisem seu próprio comportamento e reflitam sobre as causas subjacentes.

Burke sugere fazer perguntas como: O que estava acontecendo quando senti a necessidade de usar o telefone? Eu estava esperando que alguém respondesse a uma mensagem? Muitas vezes, é a ansiedade de esperar por uma resposta que nos leva a usar o celular como distração. Ao invés de ir online, ela recomenda encontrar outras atividades: ligar para um amigo, fazer exercício, ler um livro. É importante não sentir culpa ou vergonha, mas sim refletir sobre como lidar melhor com essa situação da próxima vez.

Recursos tecnológicos contra o vício em celular

As próprias empresas de tecnologia reconheceram o problema e introduziram recursos para ajudar usuários a monitorar seu tempo de tela. Muitos smartphones modernos oferece a capacidade de rastrear quanto tempo é gasto em cada aplicativo e permitir que usuários estabeleçam limites de tempo. Alguns dispositivos permitem até bloquear o acesso a certos aplicativos após atingir um limite diário.

Marios, voltando para casa em Londres, está esperançoso de que seu curso de terapia poderá ajudá-lo a superar sua dependência de celular. Apesar de reconhecer que o vício em celular trouxe consequências negativas, ele também nota que nem tudo relacionado ao smartphone é ruim, particularmente aplicativos educacionais que o ajudam a se tornar fluente em espanhol. Diariamente, ele estabelece a intenção de usar menos seu telefone, e relata que está começando a aproveitar as coisas da vida novamente, encontrando alegria em momentos offline.

Continuar a ler