Jornal Online
Tecnologia

ECA Digital: um ano de avanços na proteção infantil online

ECA Digital: um ano de avanços na proteção infantil online
Imagem: g1.globo.com. Uso informativo; os direitos pertencem ao seu titular.

ECA Digital marca seu primeiro ano com mudanças significativas

O Estatuto Digital da Criança e do Adolescente (ECA Digital) completou seu primeiro ano de vigência trazendo transformações importantes para a segurança de crianças na internet. Sancionada em setembro do ano anterior, a legislação estabelece um conjunto de medidas obrigatórias que as plataformas digitais precisam implementar para garantir um ambiente mais seguro aos usuários menores de idade.

A presença constante de crianças e adolescentes em ambientes digitais tornou necessária uma regulação específica. Para milhões de jovens brasileiros, a internet e os jogos digitais são parte inseparável do dia a dia, oferecendo entretenimento, aprendizado e oportunidades de conexão. No entanto, esse universo virtual também apresenta riscos significativos que demandam proteção adequada.

Principais inovações do ECA Digital para proteção infantil

Segundo Maria Melo, gerente do eixo digital do Instituto Alana, uma das principais inovações da legislação refere-se às obrigações impostas às plataformas digitais. A segurança de crianças na internet passa agora por mudanças estruturais nos serviços disponibilizados.

Entre as medidas mais relevantes implementadas pelo ECA Digital encontra-se a eliminação da rolagem infinita nos feeds de redes sociais, prática que mantinha usuários menores navegando indefinidamente. Conforme explicado por especialistas, desde a concepção de novos serviços e produtos digitais que possam ser acessados por crianças e adolescentes, as empresas precisam considerar a presença de menores ou implementar bloqueios caso o nível de risco seja muito elevado.

Outra restrição importante diz respeito aos chats de bate-papo. A suspensão de funcionalidades de comunicação direta entre desconhecidos representa uma barreira contra abordagens predatórias e contatos inadequados. Esse aspecto da segurança de crianças na internet demonstra a preocupação da lei com interações não supervisionadas.

Relatórios de transparência e responsabilização das plataformas

Plataformas que possuem mais de um milhão de usuários menores de dezoito anos agora têm a obrigação legal de produzir, semestralmente, relatórios de transparência. Esses documentos devem detalhar as ações implementadas para adequação às exigências do ECA Digital, criando um mecanismo de accountability e permitindo que órgãos reguladores e sociedade civil acompanhem o cumprimento das normas.

A exigência de contas parentais vinculadas também representa um avanço significativo. Novos usuários menores precisam criar suas contas conectadas aos pais ou responsáveis, facilitando monitoramento e aumentando a responsabilidade dos adultos na orientação de atividades digitais.

Desafios na implementação do Estatuto Digital

Apesar dos avanços registrados, especialistas alertam sobre desafios que ainda precisam ser superados. Thiago Tavares, presidente da SaferNet Brasil, ressalta que muitas empresas simplesmente ignoram a existência do ECA Digital e suas obrigações.

"Existe um conjunto muito grande de empresas que simplesmente ignora a existência do ECA Digital. Então, nós temos ainda desafios aí muito grandes a serem superados nos próximos meses e anos da fase justamente de implementação da lei", afirma Tavares. A segurança de crianças na internet ainda enfrenta resistência de plataformas que não priorizam conformidade regulatória.

A implementação gradual e a necessidade de fiscalização continuada aparecem como fatores críticos para o sucesso efetivo da legislação nos próximos períodos.

Impacto nas instituições e comunidades educacionais

Em instituições como o projeto do AfroReggae, localizado na comunidade de Vigário Geral no Rio de Janeiro, as mudanças impostas pelo ECA Digital já são perceptíveis. O programa que prepara jovens para o setor profissional de games precisou adaptar suas metodologias de ensino.

Iago Bezerra, professor do projeto, comenta sobre a transição: "Para eles foi um baque porque eles gostam de se comunicar de uma forma. Mas depois eles foram se acostumando e a gente foi ajudando eles da melhor forma possível a lidar com isso". Inicialmente, a suspensão dos chats gerou desconforto, mas posteriormente representou uma oportunidade de educação digital mais consciente.

Danilo Gonçalves Costa, diretor executivo do AfroReggae, avalia positivamente o impacto institucional: "Para nós, do ponto de vista institucional, somou, agregou, foi muito bom. Os pais tiveram que participar, fornecer documentos, ajudar no cadastro, e muitas informações são enviadas para os contatos dos pais. Então, eles têm a sensação de que, se fizerem alguma coisa, os pais serão informados".

Percepção das crianças sobre as novas regras

A visão das crianças e adolescentes sobre o ECA Digital demonstra que as mudanças já integram a realidade digital dos mais jovens. Ruth Helen, de dez anos, descreve sua experiência: "Falaram que não era pra mim falar com pessoas estranhas que me mandassem mensagem que eu não conhecesse. E que não era pra mim mexer no celular quase todo dia. Tá obedecendo? Sim".

Braian Batista, de onze anos, também relatou que as novas restrições já fazem parte de sua rotina cotidiana. O aprendizado sobre segurança de crianças na internet está sendo incorporado naturalmente pelo público infantil, mesmo que tenha representado ajustes iniciais em comportamentos digitais.

Segurança digital: legislação não é solução única

Especialistas enfatizam que embora o ECA Digital represente avanço importante, a legislação por si só não elimina todos os riscos do ambiente digital. A orientação contínua de famílias, escolas e iniciativas educativas permanece fundamental para proteger efetivamente crianças e adolescentes.

O Guia ABCD de Consciência Digital, produto educativo com apoio da campanha Criança Esperança, da Globo e da Unesco, complementa as ações regulatórias ao oferecer recursos para sensibilização sobre riscos digitais e práticas seguras.

A segurança de crianças na internet depende, portanto, de uma abordagem integrada que combine legislação rigorosa, implementação corporativa responsável, orientação familiar ativa e educação digital contínua nas instituições de ensino. O primeiro ano do ECA Digital demonstra que esse caminho está em construção, com avanços significativos mas desafios persistentes a serem enfrentados.

Continuar a ler

Divisas

GBP/USD1.3220
USD/CHF0.8311